“Nós, os Justos” estreia no Teatro Itália e transforma o palco em um tribunal sobre verdade, cancelamento e poder
- Redação
- há 31 minutos
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Uma acusação, rumores espalhados pelos corredores de uma empresa e uma reunião que deveria resolver tudo em sigilo. Esse é o ponto de partida de Nós, os Justos, peça que teve sua estreia no dia 6 de março no Teatro Itália, com texto e direção de Kiko Rieser e encenação da Companhia Colateral.
Na trama, uma grande empresa é abalada por rumores sobre uma suposta conduta inadequada de um de seus funcionários mais competentes. O que deveria permanecer restrito aos bastidores acaba vindo à tona após uma funcionária compartilhar a informação com uma colega — que, por sua vez, espalha o caso pela companhia. Diante da pressão para uma demissão imediata, o chefe do departamento convoca o acusado para uma reunião em sua sala, tentando encerrar o problema rapidamente. O encontro, porém, se transforma em um intenso embate de versões.
Com clima de tribunal, a peça constrói uma investigação em que cada personagem assume simbolicamente um papel clássico do sistema judiciário: juiz, acusação, defesa e testemunha. Para Rieser, a estrutura dramatúrgica busca refletir sobre a forma como julgamentos se constroem — e muitas vezes se distorcem — no mundo contemporâneo.
“A busca pela verdade produz efeitos negativos, como cancelamentos e julgamentos precipitados”, afirma o autor e diretor. “Os quatro personagens representam os componentes de um tribunal, transformando o palco em um espaço de julgamento.”
A primeira versão do texto foi escrita em 2018, quando a chamada cultura do cancelamento começava a ganhar força nas redes sociais. Para a montagem atual, o texto recebeu pequenas atualizações, incluindo a presença do conceito de compliance, hoje central no ambiente corporativo e ligado à área de Recursos Humanos. Segundo o autor, a peça trabalha justamente com a dúvida permanente sobre a honestidade de cada personagem, embaralhando a confiança do público.
No elenco estão Marco Antônio Pâmio, Camila dos Anjos, Thamiris Mandú e Luciano Gatti. Pâmio interpreta o chefe do departamento que tenta conduzir a investigação e resolver o caso de maneira rápida e discreta, mas acaba se perdendo em um labirinto de versões conflitantes. Seu personagem funciona como uma espécie de juiz da situação e também como guia do público, já que, assim como a plateia, ele desconhece muitos dos segredos revelados ao longo da trama.
Camila dos Anjos vive a funcionária que se torna o pivô da investigação, apontada como possível vítima do caso. À medida que o interrogatório avança, as fragilidades e imperfeições dos personagens começam a aparecer. Já Thamiris Mandú interpreta a colega responsável por divulgar a história dentro da empresa, motivada por razões que misturam emoção e interesses pessoais.
Luciano Gatti dá vida ao funcionário acusado de conduta imprópria. Diante de depoimentos ambíguos, silêncios estratégicos e possíveis interesses ocultos, seu personagem mantém a convicção de que é inocente. Para o ator, a resistência do acusado diante da pressão por uma demissão silenciosa acaba reforçando a tensão da narrativa.
Além dos quatro personagens visíveis, a peça sugere a presença constante de um quinto elemento: o coletivo de funcionários da empresa, chamado ironicamente de “a manada”. Embora não apareça em cena, esse grupo representa o coro invisível que comenta, julga, vigia e pressiona por punições, funcionando como um tribunal informal que se forma nos bastidores da empresa.
Para intensificar o clima de tensão, a encenação mantém os quatro atores em cena durante toda a apresentação, mesmo quando não participam diretamente do diálogo em andamento. O texto alterna rapidamente os focos das conversas, criando uma dinâmica que lembra a edição de um filme. A iluminação assinada por Rodrigo Palmieri ajuda a guiar o olhar do público entre as diferentes linhas de investigação.
Entre revelações, suspeitas e mudanças de perspectiva, Nós, os Justos se constrói como um thriller teatral sobre verdade, manipulação e julgamento coletivo. Mais do que acompanhar a resolução de um caso, o espetáculo convida o público a refletir sobre a rapidez com que se formam opiniões e sobre os riscos de condenações precipitadas em tempos de exposição constante e pressão social.
Serviço:
Temporada: 6 de Março até 26 de Abril de 2026
Horários: Sextas e sábados 20h, domingo 19h
Duração: 90 minutos
Local: Teatro Itália
Endereço: Av. Ipiranga, 344 - República, São Paulo
Classificação: 14 anos
Ingressos: A partir de R$ 45,00
Funcionamento da Bilheteria: 2h antes do evento




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